Almost Blue
17/07/2009


Sob os pórticos de Bolonha

Sinopse: Iguana é um assassino serial que está aterrorizando os estudantes de Bolonha. À frente das investigações para capturar o criminoso está a inspetora Grazia Negro, uma novata “selvagem e objetiva”, como a define seu chefe, Vittorio Poletto.

De acordo com a orelha da moderninha edição brasileira* publicada pela Conrad, Carlo Lucarelli faz parte de uma geração de autores italianos que mistura noir com cultura pop e da qual seria o principal nome. Marketing editorial à parte, o certo é que Almost Blue realmente faz a ponte entre o pop e o tradicional, a começar pelo título. Mesmo o original leva o nome em inglês da canção de Elvis Costello.

Música, aliás, é um elemento muito importante na trama policial ambientada em Bolonha, sede da universidade mais antiga do mundo ocidental e uma das mais bem preservadas cidades medievais da Europa, rodeada por mais de 30 quilômetros de pórticos. Todo esse peso histórico é confrontado com valores contemporâneos por meio da música, presente nas epígrafes e no meio do texto. O criminoso Iguana refugia-se na melodia de bandas de hard rock e punk como AC/DC e Nine Inch Nails.

Outro ponto que merece destaque é a mudança de foco narrativo, que coloca o leitor no centro dos acontecimentos. Acompanhamos a história ora pelos pensamentos do assassino, ora pelas atitudes da policial Grazia, ora pelos sentimentos de Simon*, rapaz cego de nascença que percebe o mundo principalmente pela audição e pelo olfato. É justamente o ponto de vista de Simon que traz descrições poéticas de sons e imagens , algo incomum em uma trama policial, mas que no caso de Almost Blue é uma inovação bastante agradável.

O enredo de Almost Blue não é nada excepcional e o desfecho, quintessência do romance policial, não traz muitas novidades ou emoções fortes para o leitor. Ainda assim, o modo como Lucarelli constrói o texto e as digressões que faz são uma ótima mudança de ares em relação às obras norte-americanas do gênero.

*Duas observações acerca da edição brasileira:

1) O projeto gráfico da capa, embora belíssimo e ousado, não combina com a natureza do livro: ele simplesmente não tem cara de livro policial. Talvez a intenção da editora tenha sido exatamente esta, causar estranheza no leitor e instigar sua curiosidade, mas temo que não tenha dado certo. A capa verde-limão e turquesa aproxima se aproxima do layout normalmente escolhido para gente como Chuck Palahnick e Bret Easton Ellis, com quem Lucarelli não guarda semelhança alguma.

2) Na edição original, o rapaz se chama Simone, nome masculino bastante comum na Itália. Por alguma razão esdrúxula, a editora subestimou a capacidade de compreensão de costumes estrangeiros que tem o leitor de literatura policial e mudou o nome para Simon, uma escolha infeliz por descaracterizar a nacionalidade do personagem.

Nerdshop:

  • Almost Blue, de Carlo Lucarelli (Conrad)


  • Almost Blue (idem, 1997)
    Autor: Carlo Lucarelli
    Tradutora: Romana Ghirotti Prado
    Editora: Conrad
    Páginas: 220
    Ano: 2005

     
     
      Home
    © 2005 - 2009 Homem Nerd. Todos os direitos reservados.