Cai o pano*
Sinopse: A morte de uma pensionista deixa Espinosa intrigado: a senhora tinha procurado a polícia momentos antes de morrer, mas não teve tempo de dizer por quê. Enquanto investiga, o delegado relembra acontecimentos de sua infância que podem ou não ter relação com o que aconteceu à velha senhora.
Valeu a espera. Depois de um livro sombrio (Perseguido) e um livro morno (Espinosa sem Saída), em Na Multidão, a narrativa de Luiz Alfredo Garcia-Roza se apresenta novamente com o vigor que vimos em O Silêncio da Chuva, com o qual o final deste livro guarda algumas semelhanças. Vejam bem, vigor, força, mas não excitação, empolgação. Explico.
Desde Vento Sudoeste, Espinosa não encontrava um antagonista tão intrigante quanto Gabriel, o rapaz ameaçado por uma premonição. Neste livro, é Hugo Breno quem enfrenta o delegado e o faz de forma bastante ambígua. Ele é um personagem do passado, mas de quem Espinosa não se recorda; revela ter a memória que o delegado já perdeu, lembrando-se de fatos acontecidos quase 40 anos antes, mas que na mente de Espinosa adquiriram feições borradas e aspecto irreal. Fica por conta da obstinação e constância de Hugo Breno o vigor do livro. É um personagem que oscila entre a admiração e o fanatismo, e suas atitudes confundem o leitor, que ora acha que ele é a vítima, ora que ele é o algoz.
O desânimo fica por conta do próprio Espinosa. Mais ensimesmado que de costume, o delegado se vê às voltas com bloqueios de memória (já que não consegue se recordar de algumas passagens de quando era criança), problemas conjugais (sua relação com Irene sofre um abalo significativo, mas mal resolvido pelo autor) e uma investigação policial em que, não é a primeira vez, o dolo não é facilmente estabelecido; ao contrário, é amplamente discutível.
Apesar de Garcia-Roza ser bastante criticado pela forma com que encerra seus livros, fato já apontado nas resenhas anteriores, o desfecho deste Na Multidão não causará estranheza nos fãs. É abrupto, como sempre, e tem a dupla função de despertar no leitor a ansiedade pelo próximo volume ao mesmo tempo em que encerra um ciclo.
Por fim, vale chamar a atenção para as reflexões que o livro faz sobre o sentimento de estar sozinho em meio à multidão, em como, de forma metalinguística, o autor discorre sobre a multidão das grandes cidades, que justamente foi um dos fatores que proporcionaram o desenvolvimento da literatura policial.
*O título desta resenha é uma referência ao título em português de Curtain, de Agatha Christie, que conta a última aventura do detetive belga Hercule Poirot.
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Na Multidão, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das Letras)