Toda história tem dois lados
Sinopse: O psiquiatra de um hospital universitário se sente perseguido por um jovem paciente. O sentimento aumenta a cada dia e passa a ser vivido por outras pessoas ligadas ao médico. Misteriosamente, o paciente desaparece e, depois de alguns meses, é dado como morto. Quando uma carta acusa o médico de assassinato, Espinosa aparece para investigar o caso.
Perseguido, quinto livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza (O Silêncio da Chuva), é o mais sombrio de todos na cronologia de livros protagonizados pelo delegado Espinosa até agora. É preciso que o leitor habitual de romances policiais saiba disso e esteja preparado. Este não é um livro como a maioria do gênero, em que as pistas são apresentadas aos poucos para o detetive, que as reúne num arroubo de raciocínio dedutivo e habilidade para montar quebra-cabeças para decifrar o mistério. Não é isso que acontece aqui.
A começar pelo fato de Espinosa passar quase um terço do livro à margem da narrativa. O personagem principal desse primeiro momento é o dr. Nesse, psiquiatra cujo relacionamento com Jonas, um paciente, evolui de forma paranoica e psicótica. A participação de Espinosa durante esse tempo é pequena, porque se trata de uma narrativa anterior aos fatos que o delegado terá que investigar.
É nessa primeira parte, em que o narrador se fixa no médico, que o livro nos mostra como a estrutura mental do ser humano é frágil. Os personagens possuem um lado rugoso tão presente e tão natural quando a face lisa com que se apresentam socialmente. Dr. Nesse, por exemplo, parece competente, seguro de si e controlado, mas não sabe lidar com Jonas, que por sua vez parece são, mas tem atitudes de quem sofre de perturbações mentais.
Conforme a leitura evolui, percebe-se mais uma vez essa dualidade na função que Jonas exerce em relação a todos os personagens. Ao mesmo tempo em que os encanta, o rapaz os amendronta, invade a redoma de classe média alta em que vive a família do Dr. Nesse, despertando sentimentos incômodos em todos. Já para Espinosa, há sempre duas possibilidades a se considerar: ora o rapaz é um louco, ora é extremamente inteligente; ora desapareceu, ora está morto, e assim vai.
Jonas é apenas um gatilho, uma corda que levanta a cortina da boa convivência, da bom-mocismo, da família de comercial de margarina. É um elemento que entra na vida do dr. Nesse para perturbar a ordem fictícia que o médico acreditava manter na vida profissional e pessoal. Jonas perturba não só o médico, mas atinge as filhas dele, a ex-mulher. São todos vítimas de Jonas, mas, ao mesmo tempo, causadores de seu desaparecimento.
O mistério do livro não é o que aconteceu ao rapaz; o próprio Jonas é o enigma a ser desvendado.
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Perseguido, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das Letras)