Amor e medo em Copacabana
Sinopse: Vieira, um delegado aposentado, bebe demais numa sexta-feira à noite e perde a carteira ao sair de um restaurante. Sua companheira, Magali, é encontrada morta na manhã seguinte em circunstâncias que o incriminam. Quando bebe demais, Vieira não se lembra de nada e isso vai ser um problema para a investigação que o delegado Espinosa terá que conduzir.
Segundo livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza, é também a segunda vez em que o público leitor tem a oportunidade de se encontrar com Espinosa. Depois de passar no concurso para delegado, Espinosa é transferido para a 12ª DP, em Copacabana, o que propicia que ele, morador do diminuto bairro do Peixoto, realize o sonho de muita gente e vá a pé para o trabalho. Parece bobagem, mas esse fato é muito importante para a ambientação da história.
Garcia-Roza transforma a cidade, e mais especificamente o bairro de Copacabana, em personagem do seu livro. Se em O Silêncio da Chuva o leitor podia reconhecer ruas, restaurantes e bares tradicionais do centro do Rio, neste Achados e Perdidos o holofote se volta para Copacabana. A Avenida Atlântica é testemunha de diversas cenas do livro, e o leitor mais afoito certamente incluirá um passeio ao Peixoto na próxima viagem ao Rio.
O artifício utilizado por Garcia-Roza não é novo e tem raízes históricas. Data da época da Revolução Industrial a ocorrência de uma mudança significativa na literatura policial. O fato de as pessoas deixarem o campo, onde viviam em grupos menores e todos se conheciam, para se organizar em cidades trouxe o anonimato de que o criminoso precisava para dar cabo de suas intenções; é nessa época também que surgem as primeiras corporações policiais.
Como a ficção reflete a vida real, no caso da literatura policial, arte essencialmente urbana, essa nova composição social e econômica não passará despercebida; ao contrário, será absorvida na escrita de gente como Leo Mallet (É Sempre Noite) e Rex Stout (Serpente, Mulheres Demais), por exemplo. Ou seja, para esses escritores, o que permite que a trama da maioria dos romances policiais aconteça são as metrópoles em que eles são ambientados. Embora Agatha Christie e outras escritoras tenham escolhido mansões no bucólico interior da Inglaterra como cenário preferido, é das grandes cidades que a literatura policial retira farto material de inspiração.
Assim, Garcia-Roza perpetua uma tradição iniciada no começo do século 20, mas que não ficou velha. Ao contrário, é justamente este um dos encantos de sua escrita: trazer para o cotidiano de uma das grandes cidades brasileiras histórias que antes o leitor só encontrava com sotaque estrangeiro. Neste Achados e Perdidos, a morte de uma prostituta se dá em Copacabana; fosse em Dennis Lehane (Sobre Meninos e Lobos), a coitada teria sido encontrada em uma das áreas mais pobres de Boston. Além de muito menos glamuroso, não permitiria que o leitor brasileiro reconhecesse elementos que fazem parte de seu dia a dia e nem que a trama o sensibilizasse.
Felizmente, Garcia-Roza mantém a boa narrativa com que ficou conhecido com O Silêncio da Chuva, que mereceu os prêmios Jabuti e Nestlé. Achados e Perdidos perde se for comparado ao primeiro livro, mas é só porque o volume em que Espinosa é apresentado ao público é excepcional, hors concours mesmo. Embora o segundo livro não tenha causado tanto impacto e a explicação para um dos crimes seja meia-boca, vale acompanhar a crise existencial por que passa o delegado Vieira durante todo o livro. Nos diversos momentos em que Vieira se questiona sobre sua amnésia alcoólica, nota-se a influência da vivência profissional do autor, que também é psicanalista.
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Achados e Perdidos, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das Letras)
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