Silêncio da Chuva, O
20/05/2009


Nosso homem no Peixoto

Sinopse: No centro do Rio de Janeiro, um executivo é encontrado morto com um tiro, sentado ao volante de seu carro. Ninguém viu ou ouviu nada, o que só complica a investigação do inspetor Espinosa.

O que dizer de um livro policial cujo crime principal não é propriamente um crime? De uma história em que nós, leitores, somos os únicos a saber que não houve assassinato algum? Como é possível que o autor revele, nos primeiros quatro parágrafos do livro, como realmente se deu a morte de um dos personagens, que desencadeia a ação? Dir-se-ia que o livro é um lixo, e o autor, um louco. Ambas as deduções não poderiam estar mais longe da verdade, tão longe que fariam cair o cachimbo de Sherlock Holmes ou despentear o bigode de Hercule Poirot.

Louco, não se pode afirmar que o autor o é, embora deva ter testemunhado sua cota de transtornos psicológicos durante a carreira de psicanalista. E lixo é o último adjetivo que se deve atribuir ao excepcional O Silêncio da Chuva, de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

É a opção pelo foco narrativo em terceira pessoa, o tal narrador onisciente, que permite que Garcia-Roza consiga a proeza de contar o final do livro antes mesmo de começá-lo. A ousadia, que a princípio deixa o leitor desconfiado (Mas de que raios vai tratar as duzentas e tantas páginas restantes se logo na primeira página já fico sabendo de tudo o que acontece? – pergunta-se o leitor incauto), é apenas um indício da excelente verve literária que Garcia-Roza possui e que fica comprovada a medida que avançamos na leitura do livro.

Na tradição dos romances policiais clássicos, Garcia-Roza cria um detetive que, embora seja protagonista de pelo menos mais cinco livros até agora, é muito bem caracterizado neste primeiro livro. Espinosa é um personagem cativante, fora dos padrões comumente estabelecidos para a polícia na ficção, principalmente na cinematográfica, com quem a literatura policial mais que flerta.

O policial brasileiro criado por Garcia-Roza tem um quê de Montalbano, do italiano Andrea Camilleri, e outro de Jules Maigret, do prolífero belga Simenon, e escapa felizmente do estereótipo de truculento e durão estabelecido por personagens clássicos do noir americano, como Sam Spade e Phillip Marlowe (a bem da verdade, nem Spade nem Marlowe eram membros da polícia, mas acho que a comparação ainda vale).

De classe média, Espinosa divide com os colegas europeus não só o cargo de inspetor e o apreço por atividades um pouco mais refinadas como leitura e gastronomia, mas principalmente o raciocínio ordeiro e sutil de que se utiliza para desvendar os crimes. Nem o brasileiro nem os europeus possuem inteligência extraordinária, nenhum deles é uma máquina de raciocinar. Ao contrário, são homens comuns, que cometem erros, pagam contas, têm dor de cabeça, se apaixonam e, ao mesmo tempo, são profissionais muito competentes.

O espaço das andanças de Espinosa é o centro do Rio de Janeiro, o que confere um charme todo especial ao livro. Ajuda na composição do cenário o fato de Espinosa morar no bairro Peixoto, um punhado de ruas embutido entre Copacabana e a montanha, excêntrico por si só.

Garcia-Roza e seu inspetor Espinosa são uma das melhores representações da literatura policial brasileira. Com uma escrita direta, sem rebuscamento, O Silêncio da Chuva é leitura obrigatória, um clássico contemporâneo, por assim dizer.

Leia mais sobre Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Nerdshop:

  • O Silêncio da Chuva, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das Letras)
  • O Silêncio da Chuva, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia de Bolso)


  • O Silêncio da Chuva
    Autor: Luiz Alfredo Garcia-Roza
    Editora: Companhia das Letras
    Páginas: 262
    Ano: 1996

     
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