Mistério de quarto, ops, ilha fechada
Sinopse: Mikael Blomkvist é um jornalista à beira de um colapso profissional e financeiro. Condenado por uma reportagem difamatória que publicou na Millenium, revista da qual é editor-chefe, Mikael não tem idéia de como solucionar esse impasse. Para mudar de ares, enquanto pensa em como resolver seu problema, aceita uma oferta de Henrik Vanger, um empresário idoso obcecado com o desaparecimento da sobrinha Harriet quase 40 anos antes. Mikael concorda em passar um ano na ilha onde Vanger mora para investigar o que aconteceu com a moça em troca da chance de recuperar sua vida e sua reputação.
Os Homens que não Amavam as Mulheres chegou ao Brasil precedido por diversos artigos de jornal que contavam a história do autor, o sueco Stieg Larsson. Jornalista e fundador de revista – dados biográficos que se refletem no personagem principal Mikael –, Larsson morreu em 2004, aos 50 anos, pouco depois de concluir a trilogia Millenium, da qual este livro é o primeiro volume. Sucesso de vendas e crítica na Europa, Larsson foi saudado como aquele que resgatou o “mistério de quarto fechado” da obscuridade em que o tema repousava desde o final dos anos 1970.
Para aqueles não tão familiarizados com a teoria da literatura policial, cabe esclarecer que o “mistério de quarto fechado” é aquele em que o crime ocorre dentro de um ambiente controlado, a que poucas pessoas têm acesso, e cujos suspeitos são personagens ativos durante todo o desenrolar da trama. O exemplo clássico desse tipo de enredo é Assassinato no Expresso Oriente, de Agatha Christie. A escritora inglesa criou a história de um homem assassinado dentro de uma cabine de trem e, por circunstâncias diversas e muito bem explicadas, somente 13 ou 15 pessoas poderiam ter cometido o crime. É em torno desse grupo de passageiros que a história gira e todos recebem sua cota de atenção e importância dentro do enredo.
Em Os Homens que Não Amavam as Mulheres não é diferente, embora as dimensões sejam maiores, pelo menos geograficamente. O mistério que Mikael é contratado para investigar ocorreu 37 anos antes em uma ilha minúscula, onde a maioria dos habitantes ou é parente da garota desaparecida ou trabalha para as empresas da família dela. O cenário é construído pelo autor de forma que o número de suspeitos é limitado e a identidade e personalidade de todos os envolvidos são conhecidas.
A história, narrada em terceira pessoa, se ocupa principalmente do ponto de vista de Mikael, o jornalista em crise profissional. Em alguns trechos, porém, mostra o que acontece com Lisbeth Salander, pesquisadora excepcional quando o assunto é investigar a vida alheia. Alternando o foco entre um e outro, o livro faz os caminhos dos dois personagens se tangenciarem durante boa parte da leitura. Quando finalmente se cruzam, o livro atinge o auge e mantém um bom ritmo, mantendo a atenção e o interesse do leitor até a página final.
Mikael, Lisbeth e todos os demais personagens são construídos, se não com riqueza de detalhes, com características marcantes o suficiente para o leitor traçar um retrato de cada membro da família Vanger como se o fizesse com os membros de sua própria família. Alguns recursos gráficos, como a árvore genealógica dos Vanger e um mapa da ilha de Hedebyön, onde se passa a maior parte do livro, evitam que o leitor se perca ou se confunda.
O enredo é bastante interessante e vai agradar a leitores assíduos de livros policiais. Há várias referencias à literatura policial. Mikael é leitor de romances de mistério e suspense e autores como Val McDermid são citados como opções de leitura do personagem.
Durante a narrativa, diversos fatos são apresentados durante a investigação de Mikael. O leitor não sabe ainda em quais deve deter a atenção, mas o desenvolvimento do livro tem o grande mérito de recuperá-los todos com coerência e uni-los no final de forma a surpreender o leitor.
O desfecho e o desvendar do mistério, parte importantíssima em um livro que se pretende policial, não são totalmente inesperados – é possível que alguns leitores desconfiem de parte da solução do caso –, mas a forma com que Larsson consegue atar todas as pontas e dar um destino para os personagens é honesta, digna e ainda deixa um gancho que conquista o leitor. Quando chegamos à última linha, fechamos o livro com a esperança de que o segundo volume não tarde a ser publicado.
Nerdshop:
Os Homens que não Amavam as Mulheres, de Stieg Larsson (Companhia das Letras)